
POR QUE A EDUCAÇÃO PÚBLICA DE BASE NO PAÍS É MEDÍOCRE? Vou tentar desenvolver um tema aqui. Se der certo, ótimo, senão, fica o motivo (
leit-motif) registrado para discussões posteriores.
Quando os franceses da revolução de 14 de Julho 1789 propuseram uma forma de educação baseada nas necessidades do Estado nascedouro eles estavam pensando, fundamentalmente, em alguns pontos importantes. Primeiro, para que um Estado se torne forte é preciso que seus cidadãos falem uma mesma língua, tenham os mesmos costumes, cantem um mesmo hino, cultuem uma só bandeira e as mesmas cores, brasões, armas e símbolos nacionais, blá, blá... Estava, assim, fundada a razão política do Estado Nacional. Tudo que gregos, troianos, persas, romanos e outros povos conquistadores imaginaram, ampliaram, mas foi esquecido e relegado a outros planos na Europa assombrada pela igreja durante séculos de dominação religiosa, depois que Carlos Magno fechou o acordo com Leão III pela reestruturação do que sobrou do império dos césares.
Mas, cerca de dois anos depois da revolução republicana francesa embasada no tríptico - libertè, égalitè, fraternitè (dentro de moldes cristãos modernos adpatados aos novos tempos - sic) - os políticos e governantes revolucionários sentiram que ainda faltava algo que fora negligenciado (talvez as elites políticas - os derrotados pela revolução, pelo menos - não quisessem assim) - e que seria um sistema de educação unificada que aglutinasse estas necessidades em torno de algumas ações básicas a serem orientadas e decididas em prol da união preconizada pelo nascimento do estado nacional (a idéia de Nação já estava formada desde os gregos - estado nação - e nada há de novo até aqui.)
Dali, daquela necessidade explícita, e de sua constatação, nasceu um sistema de educação unificado - uma mesma base deveria ser dada a todos os cidadãos do país, se é que se pretendia um país forte - todos deveriam ter acesso à educação básica, inicialmente, e à sua evolução na medida em que fossem se desenvolvendo, concomitantemente, as pessoas e o país, suas riquezas e necessidades. A relação de interdependência estava clara - o país é o que seus habitantes são e fazem. As elites políticas apenas devem orientar este movimento, forcejando para onde form melhor e para o bem de todos. Viva a Utopia (o distante país imaginário de Thomas Mann)
Em relação à Educação (será ela uma ciência?), os gregos já haviam definido isto, mas não consta de minhas pesquisas informações sobre ações para estender a educação básica à toda a cidade-estado enquanto função precípua da administração daquele estado - não sei se havia uma obrigação política. Nem o estado prestava este serviço (modernidade) nem o cidadão (demos) tinha interesse nele. Sabemos, contudo, que os sofistas fizeram da educação, depois que definiram a necessidade e o conceito de cultura - paidéia, - um negócio e direcionaram seus esforços para as elites gregas (Aristocracia). Os sofistas foram, assim, os primeiros prestadores de serviços voltados à educação da história documentada - , mas sabemos também que, antes, as escolas fundadas pelos pensadores já abriam espaço para quem quisesse e demonstrasse capacidade e interesse para aprender e se desenvolver, aprofundando-se no saber, independentemente de serem ricos ou pobres. As escolas de Platão e de Aristóteles eram assim, mas vieram depois.
Tudo indica que foram mesmo os franceses os que aprimoraram o modelo grego, depois de adaptado pelos romanos (e seus pedagogos - escravos especiais que serviam para conduzir as crianças até a escola dos patrícios e depois irem lá buscá-las de volta para casa), e que com o tempo este foi difundido a todas as outras democracias ocidentais.
No Brasil, país novo e carente de um planejamento estratégico que o torne e defina como Estado (ainda que se diga em seu estatuto de fundação e contrato social tratarem-se estas terras de uma República Federativa) temos um enorme problema - o país não foi feito para ser estado republicano, ou nação estratificada como as repúblicas nacionais da França, da Alemanha, da Inglaterra, e outras européias - dado que muitos povos nos invadiram e colonizaram mesmo depois de Portugal (que conseguiu a unificação pela língua, é certo, mas apesar de montar um modelo de estado administrativo rígido - D. João e sua corte sabiam se defender - os que vieram depois na tentativa de desmontagem acabaram criando mais problemas do que soluções).
As federações que constituem a República nunca entraram em guerra declarada, nunca se tentou as separar de fato e com força capaz (além de gaúchos sonhadores, os mais aguerridos), o Sul do Norte, o Leste do Oeste etc, como nos USA de Abrahan Linconl. Aqui a luta se deu e ainda se dá pela viés 'institucional', mais ladino, menos imposto aqui, mais benesses acolá, flexibilização de condutas mais adiante etc...Criação de cenários capazes de atrair investimentos, coisa e tal. Sem dúvidas, bem melhor do que banhos de sangue, convenhamos!
Mas tudo tem um preço! Com esta frouxidão (de)formativa e sem a intenção declarada de ser melhor do que o outro, o país, pela via da consequência, e, a partir das inflexões e os descaminhos que conduzem a 'res pública' ao futuro, não assumiu, como deveria, a obrigação e a estruturação efetiva de um pilar histórico educacional capaz de criar a solidez ideológica que o transforme. Os investimentos em educação por aqui são pífios, ridículos, se comparados a países menos potentes.
As federações, muito menos do que a União, tem esta vontade declarada. Sabe-se de alguma ação isolada aqui, um incentivo fiscal ali, uns arroubos inflamados acolá, belos discursos coisa e tal, mas não há, efetivamente, um compromisso essencial, um axioma ou fundamento a estruturar, a basilar esta necessidade. Sequer existe a vontade, o compromisso ético, o interesse visionário e ideológico de fazê-lo, como o fizeram a Coréia do Sul, o Vietnam, o Japão, só pra sair do eixo USA-Europa.
Multicultural, multiracial, multiétnico, pluricatatônico, perdido em sua grandeza quase enferma, mil vozes cantando mil hinos ao mesmo tempo (cada time de futebol é uma nação a ocupar mais espaço no coração do habitante, mesmo daquele que paga impostos, do que o país, propriamente dito), pouco ou quase nada há que se fazer para mudar este quadro babeli(dis)forme, misto da incompetência sifilítica de portugueses e espanhóis.
Isso, insisto, apesar de nossa continentalidade, de nosso gigantismo quase doente, de falarmos a mesma língua desde 1500, e que já carece de alterações menos cosméticas, como as que se fazem agora com a nova reformulação. O que se sabe, inclusive, é que tem 'muito portuga puto' com a idéia.
Mas, eles que não se preocupem, o Brasil vai crescer, sim, mas nunca vai deixar de ser o que é - aquilo que sempre foi desde que nórdicos e navegadores mais antigos já haviam definido - em sua genética chafurdam interesses outros, e embora saibamos que o meio influencia e interefere no desenvolvimento de zebras e de leões, estes podem vir a perder listras e jubas, mas serão sempre, no concerto estratificado das naturezas todas, uma a caça e o outro o caçador.
Recomendo uma leitura do blog da professora Idalina Jorge Oeiras, lá de Portugal em: